Um espaço para discussão de Matriz de Camaragibe

PARA REFLETIR...

Somos o que fazemos, mas somos,
principalmente, o que fazemos para mudar o que somos. (Eduardo Galeano)


quarta-feira, 10 de abril de 2013

DUAS DÉCADAS PERDIDAS


Após cem dias do velho-novo governo do ex-prefeito Marquinhos e do vice Mário Melo, lamentamos constatar que essa gestão da forma que vai, até chegar ao fim desse mandato, consolidará os últimos vinte anos, como duas décadas perdidas, o que é deplorável para os mais de nove mil eleitores que não votaram neste projeto político.

A nomeação dos secretários em pastas estratégicas como educação e finanças foi criteriosamente nepotista. Deu o tom de estarmos diante de um governo concentrador e autoritário. A questão não se refere apenas ao fato de serem pessoas da intimidade familiar, mas sim pela falta da experiência comprovada para os postos que estão ocupando, pois é praticamente impossível se fazer um trabalho satisfatório sem as devidas qualificações para o cargo que se ocupa.

Aos cinquenta dias de mandato, duas escolas inauguradas de fachada, no aniversário da cidade pela gestão anterior, foram ocupadas por famílias sem-teto, pois estavam abandonadas. A solução encontrada pelo executivo municipal foi transferir o problema para o governo estadual, e em nenhum momento se ouviu um pronunciamento por parte da secretária de educação a respeito do abandono das escolas.

O autoritarismo fica mais evidente em um dos primeiros atos administrativo do prefeito que foi acabar o aluguel social. Isso mostra que, se por um lado ele não prioriza as questões sociais, por outro abandona a proteção do patrimônio público. Parece inspirar-se em Pilatos, lavando as mãos diante da situação dos sem-teto e dos alunos que aguardam na expectativa desde o ano passado  serem matriculados nas novas escolas.

Como se não bastasse, o início das aulas se deu sem a merenda escolar. Acreditamos ser ideal que os alunos não precisassem merendar nas escolas, mas isso ainda está longe de acontecer. Por isso, este tema deveria ser tratado por esse governo a pão de ló, visto que é larga a experiência do atual prefeito com o assunto.  

O desprezo pela cultura é outra questão marcante nestes cem dias de governo. A falta de investimento nas atividades culturais afeta diretamente a adolescentes e jovens, que infelizmente em nossa cidade estão vulneráveis ao tráfico de drogas e outras violências contra a juventude. O município não disponibiliza sequer um local para que grupos de teatro e dança possam ensaiar os trabalhos desenvolvidos por excelentes profissionais de artes cênicas. 

Outro fato lamentável é chegarmos ao quarto mês da gestão sem uma proposta concreta para os funcionários com relação ao último salário de 2012, que a ex-prefeita não pagou. A exceção se deu merecidamente com os aposentados, mas são fortes as reclamações entre eles, pois no acordo aviltante que parcelou a dívida do município em dez vezes há indícios de descumprimento.

Recentemente a imprensa noticiou que desde a interdição do matadouro à matança de animais para consumo humano vem acontecendo a céu aberto, em cinco pontos da cidade. Em um deles a reportagem fotografou restos dos animais abatidos. Por causa da matéria o ministério público abriu inquérito pelos riscos à saúde e ao meio ambiente, por aí dá pra se ter uma ideia de como vem sendo tratado os que necessitam da saúde pública em nosso município.

Ainda relacionado à saúde, merece atenção à proposta para solucionar o problema da falta de água nas comunidades Dom Bosco, FUSAL e Campanha. Depois de oito anos sem renovar a concessão dos serviços de água e saneamento com a Companhia de Saneamento de Alagoas - CASAL, o governo municipal aprovou a “toque de caixa”, a criação de uma autarquia que lhe dará o direito de prestar estes serviços nestas comunidades. Vale lembrar que existe no orçamento da união cerca de oito milhões disponíveis para que o executivo municipal possa viabilizar o início do projeto.    

Na contra mão de todos esses fatos veio o aumento exorbitante e autoritário de todas as taxas tributárias cobradas pelo município. Esta atitude demonstra a falta de sintonia e diálogo com a sociedade que só tem uma alternativa: pagar pelos aumentos nos impostos sem ver uma obra nova ser iniciada, muito menos, como serão empregados esses recursos.

Sem dialogar com a sociedade o executivo decreta o fim das reuniões com as categorias organizadas. O máximo que acontece é se protocolar um ofício, quando o encontro acorre é para se adiar a pauta em discussão por tempo indeterminado, numa demonstração de total desinteresse pelos funcionários e suas legítimas representações, atitude que traz a lembrança um filme já conhecido por todos.

Por tudo isso e torcendo para que o povo não pague pelos desmandos do grupo político que vem comandando o destino do nosso município e que contabilizará vinte anos ao final desta gestão, lastimavelmente, encerraremos um período marcado pelo final do século XX e início do século XXI, que entrará para história de Matriz de Camaragibe como duas décadas perdidas.           

quinta-feira, 4 de abril de 2013

ABATE ILEGAL DE ANIMAIS SERÁ INVESTIGADO

                    INQUÉRITO. Promotor alerta para riscos à saúde e ao meio ambiente
 
 
Por: SEVERINO CARVALHO - REPÓRTER
 
 
Matriz do Camaragibe – O promotor de Justiça da Comarca de Matriz do Camaragibe, Adriano Jorge Barros, afirmou ontem que vai pedir abertura de inquérito policial para apurar as denúncias de abate clandestino de animais para o consumo humano naquele município. O caso foi revelado pela Gazeta em reportagem publicada na edição da última quarta-feira. O promotor disse que, até então, não tinha conhecimento oficial da matança ilegal, mas que já havia rumores na cidade.

“Vamos pedir a abertura de inquérito policial, pois se trata de crime contra o meio ambiente e à saúde pública”, afirmou. Em entrevista à Gazeta, um marchante e o vereador por Matriz, Leonan Pinto (PMDB), denunciaram a existência de cinco pontos clandestinos de abate de animais no município, a maioria de bovinos.

A reportagem esteve em um desses locais, a 5 km do centro da cidade, nas proximidades do Alto da Repetidora (antiga Telasa). Ali, a reportagem se deparou com inúmeras carcaças de bovinos espalhadas, restos de peles, fezes e sangue de animais. Pelos indícios, a matança ocorre ao ar livre, sob a sombra de duas árvores (mangueiras), utilizadas para içar os animais que em seguida são retalhados.
 
Edição de 04 de abril de 2013     

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

FAMÍLIAS SEM-TETO OCUPAM ESCOLAS


Por: SEVERINO CARVALHO – REPÓRTER

Inauguradas em abril de 2012, unidades estavam  abandonadas.



Matriz do Camaragibe – Duas escolas construídas com recursos do Programa da Reconstrução, em Matriz do Camaragibe, a 78 km de Maceió, foram invadidas por famílias sem-teto. Inauguradas em 24 de abril do ano passado, as unidades, que custaram R$ 900 mil cada uma, nunca funcionaram e estavam abandonadas, em um terreno no Conjunto Cícero Cavalcante, periferia da cidade.

A invasão teve início por volta das 7 horas do último domingo. Ontem pela manhã, mais e mais famílias chegavam para ocupar as escolas de Ensino Fundamental Doutor José de Gusmão Lira e de Educação Infantil Doutora Luciana Cavalcante de Mello Sampaio. Elas traziam móveis e utensílios domésticos.

“Isso aqui estava abandonado, sem água e sem energia elétrica. Nós ocupamos e estamos zelando”, declarou Benedito da Silva Oliveira, da coordenação do Movimento Unidos pela Terra (MUPT). As fezes de animais espalhadas pelas áreas externas das duas escolas denunciam o abandono. Ontem, um rebanho bovino passeava, fagueiramente, pelas instalações da Escola de Ensino Fundamental Doutor José de Gusmão Lira.

Duas bombas d’água e diversas torneiras foram furtadas antes da chegada dos sem-teto às duas unidades de ensino. Cada escola possui seis salas de aula, com 30 metros quadrados cada uma. Em um desses espaços, está abrigado o jovem casal Wanderson Luiz, 17 anos, e Sicleide Gomes, 16. Ela carrega no colo a filha de sete meses e acalenta o sonho de um dia ter a casa própria. “Já moramos de aluguel e estávamos no quintal da casa de minha mãe. Ficamos sabendo da invasão e corremos para cá. Eu sou menor, não tenho emprego fixo e por isso não tenho condições de pagar aluguel”, justificou Wanderson. De acordo com Benedito, a maioria das famílias sem-teto que ocupa as escolas era beneficiada com o aluguel social pago
pela prefeitura.

Elas moravam em áreas de risco e foram removidas. “Acontece que a prefeitura, em janeiro, cortou o aluguel social e nós resolvemos ocupar isso aqui”, alegou. O coordenador MUPT denunciou ainda que as áreas públicas de expansão do Conjunto Cícero Cavalcante estão sendo
comercializadas e ocupadas por casas e empreendimentos privados, enquanto centenas de famílias aguardam a efetivação de programas de habitação popular.

 Atualizado em: 31/03/2013
 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

CRISE EM MATRIZ. CATEGORIA FECHA RODOVIA PARA PRESSIONAR O PAGAMENTO DE 13º E RATEIO DO FUNDEB


Professores protestam por salário atrasado

Por: SEVERINO CARVALHO - REPÓRTER

Matriz do Camaragibe – O último dia do ano foi de protesto em Matriz do Camaragibe, a 78 quilômetros de Maceió, na região Norte do Estado. Professores ligados ao Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal) realizaram uma passeata, ontem, que culminou com o bloqueio temporário da rodovia AL-105. Os profissionais cobram o pagamento dos salários referentes ao mês de dezembro, o 13º dos contratados e o rateio do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).
“Estamos nessa mobilização e nessa vigília para garantir o pagamento dos salários porque o prefeito eleito, Marcos Paulo do Nascimento, já disse ao Sinteal que não pagará débitos da atual prefeita [Josedalva Cavalcante – a ‘Doda’, PMDB]”, declarou a presidente do núcleo regional do sindicato, Ana Gomes.
Os
trabalhadores se concentraram na sede do Sinteal, na Rua Doutor Luiz Moreira, por volta das 9 horas, e às 10h40 saíram em passeata pelas ruas de Matriz do Camaragibe. O grupo passou em frente à prefeitura, mas a sede do Poder Executivo estava fechada. Com bandeiras e um “apitaço”, reforçado pelas buzinas de motos e carros que seguiam o cortejo, os manifestantes seguiram em direção à AL-105 Norte.

Fonte: http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=215393

sábado, 22 de dezembro de 2012

Boas Festas!



Aos seguidores e visitantes deste blog, ao querido povo de Matriz de Camaragibe e aos que contribuíram com nossa caminhada em 2012, desejamos a todos vocês e a seus familiares um Feliz Natal e um excelente 2013!
Um forte abraço do companheiro Mário Galdino.

domingo, 9 de dezembro de 2012

R$ 544.511,30 é o valor que a prefeitura de Matriz de Camaragibe receberá nesta segunda-feira, 10 /12/2012. Referente ao repasse do 1º decêndio de dezembro do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

Os 102 municípios de Alagoas receberão - até esta segunda-feira (10) - mais de R$ 68 milhões referentes aos repasses do 1º decêndio de dezembro do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). A estimativa do acréscimo de 1% - decorrente do valor da arrecadação do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) e Imposto de Renda (IR) – também foi depositada nas contas das prefeituras.
 
Segundo dados da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), na última sexta-feira, 07, as prefeituras receberam o adicional de 1% - que é contabilizada entre o início de dezembro do ano passado até o final de novembro deste ano - e amanhã, 10, o FPM referente ao 1.º decêndio do mês de dezembro.
 
Em Alagoas, nos 102 municípios os prefeitos receberão um montante de mais de R$ 68 milhões para pagar o 13º salário e tentar fechar as contas em dezembro. Ainda assim, a CNM afirma que mesmo com o leve crescimento dos repasses, os valores não resolvem os problemas que os gestores enfrentam neste final de mandato.
 
Mas, por outro lado, os prefeitos alagoanos recebem a informação sobre os valores dos repasses com pouca comemoração, afinal, os gestores ainda encontram dificuldades em fecharem as contas até o fim deste mês. Porém, os funcionários recebem esta notícia como presente de natal, pois, a certeza de um 13º nas contas torna-se realidade. 
 
Alerta A CNM alerta aos gestores que o 1% adicional do FPM não incide retenção do Fundeb, mas trata-se de uma transferência constitucional e por isso deve incorporar a Receita Corrente Líquida (RCL) do Município. Portanto, os municípios devem aplicar os limites constitucionais em saúde e educação.
 
Será?
 
Fonte:http://cadaminuto.com.br/noticia/2012/12/09/municipios-recebem-mais-de-68-mi-do-1-decendio-do-fpm

domingo, 29 de abril de 2012

CONHECER NOSSA HISTÓRIA É TRANSFORMAR NOSSA VIDA

Entrevista para Rádio Camaragibe FM 87.9. Em 25/05/2011, por ocasião da proximidade da data da doação das terras que deram origem à cidade de Matriz de Camaragibe.


Agradecimentos ao programa Sinteal em Ação, que tem caráter informativo e educativo, que vai ao ar todas as quintas-feiras, das 12:00 as 13:00 horas, sob o comando da professora Ana Gomes e do professor Valdemir, na Camaragibe FM 87.9, Um novo jeito de comunicar. Na seqüência, postamos os principais trechos da segunda entrevista que debateu, entre outras questões, os interesses e conseqüências da doação das terras, as quais foram edificadas a cidade de Matriz de Camaragibe, no dia 24 de maio de 1686.
Mário Galdino e Ana Lúcia durante entrevista em 25.05.2011

Ana Lúcia: Que interesses influenciaram a doação das terras ao Bom Jesus, na beira do Rio Camaragibe, ao invés de ser no Alto do Oiteiro, onde não há enchente?

Mário Galdino: Lembrando o contexto histórico do momento da doação das terras, a sociedade brasileira era organizada, sendo a maioria da população escrava, ou seja, completamente diferente da realidade hoje. Então, não se tinha facilidade de mobilização, não havia muitos meios de se reivindicar e questionar as coisas. A sociedade, basicamente, era um triângulo formado pelo senhor de engenho, a igreja e a senzala. A grande maioria era escrava, portanto, não tinha força política para questionar qualquer coisa que fosse. É importante também lembrar que quando se buscar descobrir o que houve no passado, não é para condená-lo e sim estudá-lo e desvendar o que houve nele, para que não se condene o presente, porque o presente é o tempo e o momento que estamos construindo. Evidente que tudo que aconteceu no passado, influencia nos dias de hoje e assim aconteceu quanto aos interesses que houve naquela época para que as terras fossem doadas próximas ao rio, apesar de iniciativas de formação da cidade na parte alta, foi preferível se doar as terras localizadas numa faixa entre alagadiços.

Acrescente-se a esse contexto, o fato da nossa capitania ter sido invadida pelos holandeses, por uma questão simples ou complicada na época, Portugal estava sob o domínio da Espanha e isso mexia com os interesses comerciais da Holanda. A Espanha forçava Portugal a dirigir os destinos de tudo o que se produzia aqui na colônia. Naquele período uma colônia era submissa comercialmente à sua metrópole. Em termos de comparação, hoje a Argentina e Brasil são parceiros comerciais e a Argentina, por alguma razão, resolve aumentar os impostos dos produtos comercializados no Brasil por sua necessidade. O Brasil, em contrapartida, também resolve fazer suas sanções contra a Argentina. Hoje isso tudo é permitido por que há uma relação de igual soberania entre esses países, mas, naquele período não era assim. A metrópole dizia ao Brasil como era pra ser e a quem deveria vender, ou seja, era uma relação de submissão, não havia ainda um comércio baseado no capitalismo, era um comércio mercantilista onde a base dele era o acúmulo de metal (ouro ou prata). Portugal estava em decadência econômica por conta dessa situação da Espanha e por conta da ocupação holandesa em Pernambuco, então, a única maneira de encontrar recursos para sair da crise ou para atender a demanda que era necessária lá, era se plantando mais cana. Naquele período não havia a tecnologia de hoje e, conforme é ressaltado pelo professor Cícero Péricles, doutor em economia, (cujas obras foram estudadas para fundamentar o trabalho), um engenho de cana era o empreendimento comercial mais caro da época e a cana-de-açúcar era como se fosse o petróleo hoje. A ordem de Portugal, enquanto não se achava ouro no Brasil, era que se plantasse o máximo de cana possível e como não existiam vários tipos de mudas de cana (nós passamos quase 300 anos com o mesmo tipo de cana), a falta de tecnologia, de avanço e estudo propiciou essa situação e a ordem era aumentar a produção e estender a plantação da lavoura e isso precisava ser feito, mesmo que tivesse de mudar a comunidade de lugar, pois na parte baixa da cidade não era um bom lugar para o cultivo da cana por conta da abundância de água provocada pelas cheias.

O nosso estudo parte dessa ideia, relacionando o que vem sendo contado ao longo dos 300 anos (porque é que a cidade veio pra cá, lendas e etc.) e o que não é lenda como a situação econômica que está escrita e registrada de várias formas na literatura nacional. Diante disso, podemos dizer que o que influenciou fortemente a cidade ser construída entre alagadiços próxima ao rio e não na parte alta conhecida como Oiteiro foi a dificuldade econômica da Metrópole, que fez com que os proprietários de terras da então colônia, transferissem possivelmente de um lugar para o outro a cidade, sendo configurado nisso um ponto importante e significativo. Uma reflexão é pertinente fazer: por ser proprietário legítimo, o Cap. José de Barros poderia doar a terra no lugar onde quisesse e onde lhe fosse mais conveniente. Nos dias atuais, muita coisa foi construída com o dinheiro público, não foi com o dinheiro da iniciativa privada, então, é preciso atentar para essa grande diferença de ontem para hoje.

Valdemir: Quais as conseqüências da doação das terras nos dias de hoje?

Mário Galdino: É impossível que as coisas que aconteceram no passado não influenciem no presente. Fatalmente o que está sendo feito pelos homens hoje, descobertas e estudos terão conseqüências para as pessoas no futuro. Naquele período, muita coisa não era estudada como agora. Por exemplo, as discussões sobre ecologia, meio ambiente, impacto ambiental, a forma como se estuda a importância das águas. A 300 anos atrás era completamente diferente do conhecimento e informações que temos hoje e como todas essas coisas estão sendo importantes para a sociedade. Portanto, naquele momento histórico, as coisas foram resolvidas da melhor forma. Hoje a gente não pode mais agir do mesmo jeito porque a sociedade hoje é outra. A sociedade se organiza de forma diferente, as pessoas pagam impostos, temos entidades e instituições criadas para defender o interesse público, como promotor, juiz, advogado, várias instituições religiosas, escolas, sindicatos, associações de moradores, os poderes constituídos: legislativo, executivo e judiciário. Tudo isso temos na cidade funcionando em pleno vapor.

No momento da doação das terras, pra poder sair de uma situação de crise, foram doadas terras num lugar difícil. O tempo passou, avançou e, por um determinado período, foi possível sobreviver aqui. Mais, quanto mais passou o tempo, quanto mais a cidade cresceu, as coisas foram tomando uma dimensão que é necessário e é preciso se tomar outras providências e isso não aconteceu. Há algumas situações que lembram bem essa trajetória de transferir o povo de um lugar para outro para que ele possa fazer moradia e criar seus filhos e viver com sua família. Por exemplo, nós temos aqui uma comunidade chamada Alto do Céu próxima ao Alto da Bica, onde a maioria das pessoas, infelizmente, ainda não tem acesso ao conhecimento e tem um nível baixo de escolaridade. Mesmo assim, esse pessoal, na hora de construírem suas casas, intuitivamente, para se proteger, escolhem um lugar onde a enchente não chega. Aí o que é que ocorre? O dinheiro público chega no município destinado à fazer casas para a população, e, ao invés de se viabilizar melhorias e condições para se fazer casas decentes em um lugar longe da cheia onde eles, por intuição, escolheram, os engenheiros e secretários determinam que sejam feitas as casas populares às margens do rio e trazem a população da parte alta da cidade para morar na margem do rio. Isso é a conseqüência!!! Você percebe que não são apenas as casas que foram construídas na FUSAL, do outro lado da FUSAL também tem uma série de casas feitas assim.

Tem outra comunidade num conjunto que a igreja católica chama de Comunidade Dom Bosco e o povo apelidou de Toca da Gia, que é a mesma coisa: um lugar péssimo para construir casas. A gravidade da questão é que não se trata de tirar o povo de uma fazenda e colocar em outra fazenda, é o dinheiro público!!! Alguém recebe e ganha bem para administrar esse dinheiro e faz dessa forma. No caso do Alto da Bica, mais precisamente o Alto do Céu, como na época as casas não foram suficientes para todas as famílias, uma parte foi morar em casas alugadas, mas, com o passar do tempo, depois da grande cheia, os aluguéis deixaram de ser pagos e hoje, infelizmente, o povo voltou pra lá e está completamente lotado novamente. Então, é por isso que é preciso fazer o debate, é por isso que é preciso compreender quais são as conseqüências, é por isso que se acredita que se a história for discutida na sala de aula e todo mundo tomar conhecimento, na hora em que uma obra dessas for feita, as pessoas terão como fazer a discussão, questionar, contestar o porquê de não poder ser feita em outro lugar.

Não é surpresa mais pra ninguém o debate sobre ecologia, meio ambiente, impacto ambiental. Todo mundo sabe que o rio Camaragibe hoje não é importante só para a nossa cidade; não é importante só para o nosso estado, para a nossa região, para o nosso país, o rio Camaragibe é importante para o mundo! Então, você não pode fazer uma obra no rio que coloque em risco a vida das pessoas, que tenha um impacto ambiental danoso, que coloque em risco a pureza das águas. Tem casas que foram feitas, por exemplo, com a fossa construída à margem do rio e quando o rio enche, leva a fossa. É fundamental que a gente reescreva a história, releia, rediscuta, que ela vá para as escolas. Graças a Deus, hoje existe uma proposta de universalizar a educação, ou seja, todo mundo deve ir à escola, então, se todo mundo vai pra escola, é bom que comece conhecendo a nossa história, a história do lugar que a gente vive, a história da rua e do bairro que a gente mora e, somente depois, conhecer as outras histórias, e não o contrário.

Ana Lúcia: Quando o Capitão José de Barros resolveu doar as terras, num momento em que se vivia a escravidão, foi um ato louvável, reconhece-se. Mesmo diante de toda a modernidade, das tecnologias inseridas hoje nas escolas, como você vê a ausência da história de Matriz ou a história das cidades nos currículos escolares?

Mário Galdino: Primeiro a gente precisa compreender que é importante que tudo que fosse ensinado nos currículos escolares tivessem uma ligação profunda com o dia-a-dia dos alunos, do lugar onde a pessoa vive, isso é fundamental. Claro que a educação é coordenada, dirigida e tem interesses, vários interesses, não adianta a gente esconder, colocar isso pra debaixo do tapete. Vários autores defendem que é a partir do cotidiano dos alunos que devem ser estudadas todas as outras coisas. O aluno não pode estudar um assunto sem acreditar que aquilo não tem nada haver com ele. No caso da história, não dá pra estudá-la achando que é apenas pela importância do passado, é preciso estudá-la fazendo uma relação com o que estar se vivendo hoje. Na hora que é feita essa relação, passa-se a ter outra visão, a ter outro interesse naquilo que está sendo estudado, caso o contrário, o aprendizado fica difícil.

A educação pode seguir duas vertentes: 1) manter as coisas como estão e apenas reproduzir e 2) transformar as vidas das pessoas. Tudo vai depender do modelo que se quer seguir. Foi exibida uma reportagem recentemente sobre duas escolas: uma altamente equipada, com espaços enormes, mas, seu nível do IDEB baixíssimo; a outra com instalações precárias, sem estrutura nem recursos tecnológicos, porém, seu índice de IDEB acima da média no Brasil. Segundo a explicação do diretor, essa escola funcionava com todo o seu corpo de profissionais (coordenadores, professores e diretores) como uma equipe. A diferença entre um grupo que é controlado, dirigido e dominado num estabelecimento de ensino e uma equipe é que quando o trabalho é feito em equipe, todo mundo está unido para pensar juntos nas soluções e fazer um programa curricular onde seja discutido e valorizado o aspecto da transformação da vida dos alunos e, às vezes, nesse caso, até enfrentar as ordens, porque não é a toa que a gente não vê a história dos municípios nas escolas. Acredito que, a partir do momento em que o aluno começar a conhecer sua história, vai questionar, vai querer saber por que e a quem interessa, a quem prejudica ou é favorável as medidas que estão sendo tomadas para aquelas coisas que estão sendo feitas. As pessoas, minimamente, todas que estão na administração tem conhecimento disso, sabem muito bem disso, aí, é interessante que a população passe a atuar dessa forma ou não?

Quando a escola e as pessoas que fazem a educação começarem a discutir e trabalhar na perspectiva de transformar, não vai ter outro caminho senão partir logo pra conhecer: onde é que estou? Qual é a minha história? O que é que estou fazendo aqui? O que houve no passado, para as coisas estarem assim hoje? Tem que haver uma quebra da lógica individualista de que é bastante apenas o meu bem estar e o da coletividade não. Porque o que fizeram no passado, deu problema para nós hoje, e se continuarmos com o ciclo vicioso, provavelmente, serão nossos sobrinhos, nossos filhos, nosso netos, ou seja, serão pessoas bem próximas de nós à sofrerem as conseqüências. É urgente o debate. O programa Sinteal em Ação está de parabéns em dar a oportunidade e provocar debate no campo educativo em uma emissora de rádio, isso é muito importante!

O nosso trabalho é incompleto, está iniciando ainda, é preciso que mais pessoas façam esse estudo para poder encontrar uma maneira de unir conhecimentos e as descobertas e ter um material preparado para que a gente possa oferecer às grades curriculares e os alunos possam ter conhecimento da forma mais didática possível da história da sua cidade.

Não resta dúvida que todas as coisas que aconteceram na construção da nossa cidade, partindo do momento que a gente define como sua origem: a doação das terras, tiveram conseqüências nos dias atuais. Fizemos uma viagem relacionando a história que se conta e a história econômica para ter uma explicação sobre as conseqüências, em função de tudo que acontece periodicamente na nossa cidade, em relação às enchentes. Precisamos estudar, aprender a lição e não deixar pra reconstruir a cidade num momento de uma catástrofe. Isso é um investimento e vale a pena fazer o debate porque o que agente tá pensando é a mesma coisa do SINTEAL: qualidade de vida. É possível porque nós estamos vivendo em um período em que as pessoas não são mais escravas, as pessoas hoje trabalham, recebem e pagam impostos e o dinheiro dos impostos é administrado e quanto ao dinheiro público devemos conhecer seu destino com transparência e informação. A escola tem o papel de mostrar o lado científico da história, do conhecimento e sair da versão conservadora, porque as transformações estão aí e não tem como a gente negar.



sábado, 7 de abril de 2012

A DROGA TORNA O ATO DE MATAR TÃO NATURAL QUANTO O DE NASCER!

Matriz registra dois homicídios em menos de 48 horas”. A manchete do dia 30 de março, nas páginas do jornal Gazeta de Alagoas, parece aguardar o momento para registrar um número ainda maior de homicídios no mesmo espaço de tempo ou num período ainda menor. Neste ritmo, é como se não restasse alternativa aos habitantes de Matriz de Camaragibe, que acompanha atordoados os crimes cometidos contra nossa população, especialmente os jovens.

A história recente de Alagoas é marcada pela institucionalização da violência. Os crimes políticos e de mando, muitos deles atribuídos a gangue fardada, como também aqueles elucidados pelas operações da Policia Federal são péssimos exemplos de crimes praticados por homens públicos que tornam a violência algo institucionalizado e, como se não bastasse, em sua maioria, os acusados acabam impunes.

Com a violência campeando nas instâncias públicas, como nos casos Dimas Holanda, Ricardo Lessa, Silvio Viana, Ceci Cunha, Coronel Cavalcante, Operação Gabiru (Cícero Cavalcante, Marcos Paulo entre outros), só pra citar alguns exemplos de vitimas e réus ligados à elite política alagoana. Se não há nenhuma garantia de segurança e punição para esses, imaginemos como se torna normal para traficantes cometer crimes de morte contra o cidadão comum.

A droga torna o ato de matar tão natural quanto o de nascer! Um dos vieses da violência que se aflora em Matriz de Camaragibe, tem origem no tráfico de drogas. O jovem pobre dependente acaba por se endividar com os traficantes, aí o caminho é sem volta, pois, no “SPC” do tráfico uma das formas dos usuários saldar seus débitos é com a própria vida e, neste quesito, os traficantes não perdoam, são implacáveis e utilizam o método como exemplo para que outros clientes não deixem de honrar suas dívidas.

Em Matriz de Camaragibe, onde a maioria absoluta da população é considerada de baixa renda, o destino dos que caem na armadilha dos traficantes é o encontro mais cedo possível com a morte, pois, a condição de pobreza leva, inevitavelmente, o usuário para a criminalidade para poder satisfazer seu desejo. Como raramente esta alternativa é bem sucedida o resultada é prisão, endividamento e, consequentemente, a morte. Aqueles que conseguem manter o vício através destes métodos, morrem pelo uso cotidiano das drogas.

Alem da violência criminosa a droga traz consigo a violência psicológica. Algumas mães relatam que tem que esconder os filhos em fazendas ou ainda, ao visitarem os que se encontram presos, estes questionam se elas estão providenciando dinheiro para pagamento das dívidas, caso contrário, morrerão ao saírem da cadeia.

As consequências fatais provocadas pelo tráfico em nosso município são confirmadas pelo delegado Valdir de Carvalho, que quando do assassinato de José Wellington dos Santos, 29 anos, também conhecido como “Fefeque”, afirma na matéria jornalística supracitada, que “Já temos os caminhos para elucidar esse crime. Foi envolvimento com o tráfico, sem dúvidas”.

Diante da inoperância dos governos estadual e municipal, evidencia-se a necessidade de reagir das famílias, das igrejas, das ONG’s e outras entidades comprometidas em combater este tipo de violência, no sentido de cobrar dos governantes a implementação de políticas públicas voltadas para solucionar tal empreitada.

Fefeque era irmão do Gerimauro, o primeiro teve um destino trágico, o segundo é conselheiro tutelar pela segunda vez, onde foi o mais votado nas duas eleições que disputou. Os dois nasceram e cresceram sob os cuidados da família e chegaram à idade adulta passando por dificuldades e, mesmo tendo trilhado caminhos tão diferentes, até então foram igualmente vitimas do desgoverno em nosso município, nas duas ultimas décadas, principalmente pela falta de políticas públicas que coloquem a juventude como protagonistas num cenário municipal que privilegie seu crescimento pessoal e profissional.

O momento que o povo camaragibano atravessa é muito delicado. A cidade às vésperas de completar 54 anos de emancipação, os administradores atuais, executivo e legislativo estão no comando do município por mais de um terço deste período, ou seja, estamos há quase duas décadas sem mudança significativa no perfil dos nossos gestores, este contexto denuncia a incompetência e conivência de prefeitos e vereadores com a realidade enfrentada pelo povo de Matriz de Camaragibe.

O quadro violento e a falta de credibilidade nas instâncias governamentais, em alguns momentos históricos inibem a mobilização popular, mas, não podemos esquecer que estamos num ano eleitoral onde, democraticamente, podemos nos mobilizar e demonstrar toda nossa insatisfação através do voto, de forma secreta e, ainda registrarmos o nosso desejo de mudança por melhor qualidade de vida e cidadania.

quinta-feira, 8 de março de 2012

MATRIZ DE CAMARAGIBE E O DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Há cerca de quatro anos, minha filha iniciou uma conversa comigo, a partir da seguinte indagação:
– Por que não existe o dia do homem?
Em momento algum passou pelo meu pensamento que Marílya quisesse me agradar, mas, se tratava de uma jovem adolescente que ainda não tinha conhecimento e compreensão dos desafios históricos enfrentados pelas mulheres, então respondi:
– As mulheres são vítimas das agressões físicas por parte dos homens.
– Mas, devia existir o dia do homem, ela insistiu.
– Continuei a explicar: As mulheres, mesmo quando desempenham as mesmas atividades profissionais que os homens, chegam a receber, em alguns casos, até metade do valor pago a uma pessoa do sexo masculino.
– Ainda assim, acho que devia existir o dia do homem, Marílya persistiu.
Aí, eu apelei e disse:
– Olha filha, você ainda é uma criança!
– Quando vocês não querem responder dizem isso, ela revidou.
Angustiado, comecei a dizer à minha filha:
– É possível que você tenha razão, pois, na história na humanidade todas as transformações e mudanças, principalmente as tecnológicas, se deram através da exploração do homem pelo homem, um nível de exploração imensurável, impossível de se medir e que nos dias de hoje isso ainda continua. Como é possível depois de todo desenvolvimento científico e tecnológico, homens e mulheres terem que trabalhar oito horas por dia? De que vale a velocidade dos computadores se as pessoas estão adoecendo com o mal de enfermidades como a LER (lesão por esforço repetitivo)? É isso que precisa mudar, passar por sérias transformações, pois, a sede pelo lucro não pode continuar justificando a exploração do homem pelo homem. Uma sugestão para caminharmos avançando no sentido de não termos que registrar tantas datas por melhoria na qualidade de vida, é a redução da jornada de trabalho para quatro horas sem reduzir os salários.
Marilya, se sentindo provocada, afirmou:
– Quatro horas é pouco tempo!
– Claro que não, filha! Primeiro, contribuiria fortemente para distribuição de renda; segundo, para o lazer das famílias. Eu, por exemplo, no primeiro horário eu estaria trabalhando e no segundo na companhia da família, companhia essa que você tanto reclama a ausência. Você, quanto tempo passa na sala de aula?
Depois de um rápido silêncio, ela respondeu:
– Umas quatro horas.
Então perguntei:
– É pouco tempo?
O silêncio foi maior e ela respondeu, com os olhos cheios de lágrimas:
– Tudo bem, painho, isso é assunto para adulto mesmo!
Não é preciso dizer que a conversa com a Marilya acabou por aí. Evidente que não acho quatro horas em sala de aula um exagero, o ideal são as escolas em tempo integral. O que precisa ser reduzido é o tempo de trabalho em até cinqüenta por cento, mas, há uma preocupação com o que estão ensinando aos nossos filhos, pois, o diálogo instigante com minha filha nasceu do modo como o tema relacionado às comemorações do dia internacional da mulher foi abordado em sala de aula.
Acredito que todo tempo do mundo é pouco para se apreender, até porque em todo lugar e a toda hora estamos aprendendo. Portanto, vale ressaltar que Marílya, aos quatorze anos, no auge de sua adolescência, não tinha o acúmulo de conhecimento, para discernir o poder que o capitalismo tem de influenciar no cotidiano das pessoas e que, as transformações e mudanças ocorridas no mundo ao longo dos tempos foram com a luta e participação das mulheres, historicamente, colocadas na posição de exploradas e discriminadas pelas sociedades.
Em Matriz não é diferente, as mudanças e transformações são inquestionáveis, mas, os desafios para as mulheres se atualizam ano após ano. Em nossa cidade, elas votam, mas não conseguem se eleger; desempenham com competência atividades profissionais, porém, estão sujeitas às diferenças salariais. É comum algumas mulheres fazerem faculdade, cuidar do bebê, exercer dupla jornada de trabalho e ainda atuarem na militância política, mas, em Matriz de Camaragibe, isso é tido como privilégio, além de serem vítimas da violência doméstica e urbana (agressões físicas, estupros, prostituição, drogas...), como se não bastasse, a Lei nº 11.770 de 09/09/2008 que amplia a licença maternidade para seis meses, por descaso dos nossos gestores, ainda não foi implementada em nosso município.
Neste contexto de exploração do homem pelo homem, onde as conseqüências recaem fortemente sobre as mulheres, protagonistas no histórico processo de transformação social, nos revela a importância de continuarmos reafirmando as lutas e reivindicações para mudar este quadro perverso e desleal, que persiste anos a fio e que é tratado por alguns setores da sociedade com certa naturalidade. Por tudo isso não podemos baixar a guarda, as manifestações e os debates na defesa dos direitos da mulher continuam cada vez mais atual em Matriz de Camaragibe no Brasil e no mundo.

ESTAMOS EM LUTA PERMANENTE POR UM BRASIL LIVRE E SOBERANO, IGUAL, SOLIDÁRIO E JUSTO, COM AUTODETERMINAÇÃO DAS MULHERES.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!!!!

Companheir@s, 2012 está chegando e com ele renovo também minha esperança em dias melhores. Agradeço e felicito a todos que me acompanharam em 2011, com votos de muita prosperidade e novas realizações no ano novo. A poesia de Carlos Drummond de Andrade, a seguir transcrita, traduz meus desejos para o ano que se aproxima, portanto, utilizo-me dela para propor um momento de reflexão, ao tempo em que desejo a todos um feliz natal e um ano novo de muita paz !!!


RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
(Carlos Drummond de Andrade)